Internet: mais um capítulo na evolução da comunicação

Mesmo após quase duas décadas de estudos, as dúvidas sobre a influência das tecnologias digitais na área da comunicação parecem continuar as mesmas.  De forma cíclica, começam e terminam sempre em um mesmo ponto, realçando dicotomias. Que a relação de emissor-receptor mudou de forma a se fundir, isso todo mundo já percebeu. Que o papel dos gatekeepers – seletores de conteúdo – já não é mais o mesmo, também. O que ainda ninguém sabe responder é onde tudo isso vai parar. Quem vai se sobrepor a quem? Haverá de fato uma democratização da comunicação? Ou as graças da economia capitalista vão levar vantagem restringindo acessos aos que podem mais e transformando tudo em “mais do mesmo”?

 Imagine um indivíduo e os constantes processos de transformação e adaptação pelos quais passa ao longo de sua existência. A depender do contexto da época e das pessoas envolvidas, ele muda seus comportamentos, suas ações, seu modus operandi. O resultado disso é quase sempre um somatório de experiências que não necessariamente põem fim às coisas, mas as reorganizam e as reacomodam. Fazendo uma simples analogia com uma ação cotidiana: o ato de se locomover. Um homem solteiro, que viva só, por exemplo, pode escolher como meio de transporte uma moto e ela lhe servirá no objetivo. Ao se casar, a moto continua servindo ao casal. Já com a chegada de filhos, a compra de um veículo que caiba mais pessoas se faz necessária. O ato de se locomover permaneceu intocado, mas o modo de fazê-lo precisou ser readequado à realidade e se cobriu de novos significados.

Assim também acontece com os meios de comunicação. O filósofo Michel Serres exemplificou muito bem isso, em entrevista dada ao programa Roda Viva, no ano de 1999, referindo-se à evolução humana. Ele disse: “Eu tinha um professor, que era um homem admirável. Ele descrevia a maneira de como o homem se levantou, dizia ele: ‘ele estava de quatro e se levantou’, e ele nos mostrava ficando de quatro, mostrava que as duas mãos sustentavam o corpo, e quando o corpo levantou dizia ele: ‘as mãos perderam a função de sustentar, mas adquiriram a função de pegar’, portanto a mão apareceu. Mas, antes quando estávamos de quatro, a boca tinha a função de pegar, já que as mãos estavam ocupadas, portanto a boca perdeu a função de pegar, não é? Mas ela ganhou a função de falar. E desde que este professor me explicou tal fenômeno, tornei-me um homem otimista, por quê? Porque ouço todo mundo dizer: ‘perdemos o humanismo, perdemos os valores, perdemos a memória, os jovens já não tem mais memória, não tem imaginação por causa das imagens, não tem a possibilidade de fazer cálculos, porque existe a calculadora’. Mas é melhor assim, não é? Porque é justamente quando se perde a função, que se percebe que perder a sustentação não é nada, já que os pés dão conta. Mas ganhar as mãos, nos tornou uma espécie que pode ser pianista, ou então cirurgião, ou prestidigitador. As mãos são um órgão extraordinário. Portanto se ganha muito mais do que se perde. Perder isto ou aquilo implica em ganhar coisas extraordinárias. Por quê? Porque de certa maneira, mesmo o cérebro perdeu algumas coisas e está livre para inventar. E, enquanto historiador da ciência, posso testemunhar isso. É porque no renascimento perdeu-se a memória da erudição, que se inventaram as ciências experimentais. Porque ao invés de copiar as ciências em livros, olhava-se apenas a realidade das coisas. Sou otimista por causa disto”.

Desde os primeiros gestos e grunhidos, passando pelo surgimento da fala e da escrita até os dias de hoje, na era digital, a comunicação passa por várias transformações, porém sem abandonar de vez “isso” por “aquilo”. Ao contrário, está a todo o momento se reconfigurando, criando novos usos, fundindo práticas, cada qual com seu espaço.

O jornalismo e as profecias não cumpridas do fim

O filme é sempre o mesmo, mudando apenas as personagens. Com o surgimento da TV, juravam que o rádio estava com os dias contados. Já com o surgimento da internet, a profecia foi o fim dos jornais. Com o surgimento dos prosumers – produtores e consumidores de notícias – estava por um fio a profissão dos jornalistas. Nada disso se cumpriu tão “apocalipticamente” como se previu. Tudo se reconfigurou, se recriou, se reacomodou e muitas vezes, se complementou.

A TV ganhou seu espaço em harmonia com o rádio. A internet cresceu e os jornais passaram por aquilo que já era sua sina, considerando fatores antigos, como uma população que não lê, por exemplo. Uma mudança já era necessária e a grande rede apenas acelerou e propiciou as ações concretas dessas mudanças. Os jornalistas não foram “extintos” e têm encontrado seu espaço enquanto produtores e gerenciadores de informação. Os prosumers continuam achando o máximo seus quinze minutos de influência na rede. Alguns vão muito além desses  quinze minutos e viram casos de sucesso. O fato é que tudo corre sempre como águas de um rio que, continuam fluindo, independente dos obstáculos, apenas moldando-se.

Mas, como para muitos o hoje é o que vale, uma coisa é inegável: a tecnologia digital tem tido papel surpreendente acelerando em muito a evolução dessa comunicação a que nos referimos. No passado, por questões ligadas à influência, poder e dinheiro, não vivemos grandes mudanças do ponto de vista social. Hoje não! A internet tem se mostrado um aliado para muitas transformações ocorrerem.

Mas como as águas desse rio nunca param… Por um lado, vemos casos como a “Primavera Árabe” no Egito, como o “Ocuppy Wall Street” nos EUA e o “Fora Micarla” em Natal em que a população se apropriou das possibilidades da internet mostrando sua força. Por outro, projetos de leis como SOPA, PIPA, ACTA e o AI5 Digital tentam enquadrar algo que hoje ainda está “livre” da mão e domínio dos poderosos. Sem perder de vista a visão comercial, se por um lado vemos a oferta cada vez maior de informação de forma gratuita, por outro vemos empresas de comunicação buscando fórmulas para vender essa mesma informação.

Que rumo tudo isso vai tomar? Bom, não espero conseguir responder esta pergunta. Essa história ainda está sendo escrita. E nós, nesse tempo, estamos não só assistindo essa construção como participando ativamente dela. Para os mais otimistas, o fim dela será um grande triunfo do homem sobre toda a negatividade, restando apenas os benefícios. Para os apocalípticos o fim dessa história é a frustração, o acordar de uma ilusão onde nem tudo é o que parece. Para os mais “realistas”, o rio continuará a correr… E você, em que perfil se enquadra?

Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não necessariamente expressa o pensamento do grupo Cibertrans

Anúncios
Esse post foi publicado em Ciberespaço, Internet, Lívia Cavalcanti e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s