Pensando o humano e o não-humano: alguns apontamentos

Próximo dia 22 de setembro teremos mais um dia de estudos do nosso ciclo e o autor estudado será Bruno Latour. O livro escolhido foi o “Jamais Fomos Modernos” (para baixar clique> LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos). Como preparação desse estudo, segue abaixo um texto com algumas reflexões do pesquisador Antonino Condorelli sobre as relações/hibridações de humanos e não-humanos e sobre as ideias de homem e de natureza, que traçam conexões entre o pensamento Latouriano e o de outros autores como Karen Barad, a filosofia budista e outros. Boa Leitura a todos!

Pensando a natureza: uma introdução

 Gosto de chamar nosso planeta de Géia, como o faziam os gregos séculos atrás e como hoje o fazem alguns cientistas. Afinal, ele é o que é por nossa causa. Ou melhor, parafraseando uma afirmação do Buda, se somos assim é porque ele é assim, se ele é assim é porque nós somos assim: nos construímos, desconstruímos e reconstruímos reciprocamente o tempo todo. Em muitos lugares e diversas épocas, povos e indivíduos os mais diversos já experienciaram e descreveram a terra que todos pisamos como uma Grande Mãe generosa e acolhedora, uma Deusa equânime que tudo abraça e transforma, geradora permanente de vida a partir da morte, infinita teia acéfala da qual nós humanos não somos mais do que um fio. Ela já foi vivenciada como nossa irmã, como pai protetor e às vezes vingativo, como companheira inseparável nos caminhos da existência. Muitos de nós já se perceberam como simples células do seu corpo vivo. Se preferirmos usar uma linguagem mais em sintonia com o nosso tempo, onde o método de abordar, construir e narrar o mundo que predomina nos ambientes oficialmente prepostos para a produção de conhecimento fragmentou a realidade – pondo-se mais tarde o problema da sua religação – e especializou assim (às vezes até o extremo) os conhecimentos gerados sobre ela, diria que em muitas épocas e por muitos povos e indivíduos ela tem sido percebida – e ainda o é, inclusive por alguns produtores daquela mesma ciência que por vários séculos estilhaçou o universo – como uma entidade físico-bio-antropológica (admitindo que existam esferas ou dimensões de realidade que possamos chamar de “física”, “biológica” e “antropológica”, categorias sobre cujo uso, pelo menos não problematizado, sou cético), um sistema vivo em permanente auto-recriação de cujo processo nós humanos somos ao mesmo tempo emergência e elemento indissolúvel, em simbiose com todos os demais organismos (temporariamente) vivos e (provisoriamente) não-vivos. Enfim, a forma como nossa Terra é experienciada, narrada e constantemente transformada é o produto do nosso incessante diálogo com ela, assim como o é a forma como nós somos, nos percebemos e nos transformamos continuamente. Na falta de outra denominação mais eficaz, gosto de referir-me a ela com o apelido mítico de Géia. O prefiro ao termo que traduz outro mito, bem mais recente, que foi criado no Ocidente e que muitos passamos depois a habitar experienciando-a até hoje como uma máquina perfeita, uma sorte de relógio impecável, um gigantesco aparelho biofísico minuciosamente concebido e movido por leis imutáveis, observáveis, reprodutíveis e quantificáveis, um deslumbrante cenário para nossos dramas, aventuras e paixões, um bonito pano de fundo para as nossas interações sociais, culturais, econômicas e políticas dela independentes, um reservatório de recursos para a satisfação plena das nossas necessidades, um inferno selvagem a ser domado e domesticado ou uma fascinante pintura, uma projeção materializada das nossas idéias de belo e de puro, uma entidade não “contaminada” pelas nossas ações e pensamentos, “selvagem” pois de nós separada, transformada em um bibelô a ser preservado intacto para despertar em nós experiências éticas e estéticas: esse mito através do qual a maioria de nós passou a percebê-la chamando-a de “natureza” e separando-a da “cultura” e da “sociedade”, isto é, afastando-lhe da humanidade. Falei em “mito” e não simplesmente em “conceito” porque este conjunto de idéias sobre a natureza e a sua relação com o que lhe seria “externo”, isto é, nós mesmos se tornou uma narrativa fundante, muitas vezes oculta, totalmente incrustada no olhar de indivíduos e povos – hoje não apenas no Ocidente – e que condiciona fortemente a maneira como a realidade é percebida/construída, assim como a forma como é produzido o conhecimento.

Mas vamos com calma. Estas minhas divagações sobre a natureza começaram quando me propus a refletir sobre as diferentes formas de conhecê-la e relacionar-nos com ela que emergem de experiências narradas ou (re)construídas em algumas narrativs literárias e cinematográficas de caráter biográfico. Minha idéia era traçar diferentes arquétipos de relação ser humano-natureza, mas nenhum caminho é reto e liso. Desvios, bifurcações, obstáculos que nos obrigam a mudar de rumo aparecem incessantemente e – a não ser que o percorramos com o rolo compressor de objetivos pré-definidos rigidamente fechados, aplanando tudo o que se depara na nossa frente para chegarmos sem sobressaltos à meta esperada, já determinada desde o começo – dificilmente o ponto (sempre provisório) de chegada corresponde às nossas expectativas iniciais.

Inquietações epistemológicas surgiram logo depois que comecei a interrogar-me sobre diferentes modalidades de interação entre ser humano e natureza, pois a simples idéia de “inter-ação” não me satisfazia conceitualmente. A expressão – “inter-ação” é “ação entre” dois sujeitos, dois objetos ou entre um sujeito e um objeto – presume a existência prévia de duas entidades independentes, com características inerentes, e põe a questão da natureza das “pontes” construídas para possibilitar a relação, para a cognoscibilidade de uma por parte da outra e a recíproca transformação. Ao procurar estratégias que me orientassem na definição de arquétipos de relação entre natureza e seres humanos me senti invadido por uma desagradável sensação, a de que uma visão não problematizada desta “interação” tendesse a criar três classes de realidades estanques: por um lado, uns sujeitos cognoscentes com características próprias e independentes; por outro lado, uma realidade externa regida por leis fixas observáveis e traduzíveis em fórmulas universais – como quer a ciência clássica, fundamentada na visão de mundo cartesiana – ou somente cognoscível a partir de “próteses” construídas pelos sujeitos que com ela interagem; no meio destas duas entidades, haveria um conjunto amplo e diversificado de “mediações” (linguagem, conceitos, mitos, aparelhos de observação, etc.) separadas das coisas, mas que de alguma forma encontrariam-se ligadas a elas para poder torná-las inteligíveis. Nos dois extremos desta percepção do real, como mostra Bruno Latour (2008), encontramos a objetividade e a subjetividade absolutas: a natureza existe independentemente dos sujeitos que a conhecem e o conhecimento que se baseia na experimentação e quantificação reflete a realidade tal como ela é; ou então a natureza não sou mais do que um produto de dinâmicas, interações e acordos entre sujeitos autônomos, a realidade coincide com as representações sociais que nós humanos construímos acerca dela ou, nos casos extremos em que se concebe que nada há além do discurso, com os enunciados que fazemos a seu respeito. Em todos os casos, tanto a realidade humana como a natural são pensadas em termos de subjetividade-objetividade, mundo-representações, realidade-discurso, etc. (mesmo que seja para negar um dos termos).

Portanto, se não tivesse me posto tais questionamentos, uma análise das relações entre ser humano e natureza que emergem das obras que quis explorar teria me levado quase inevitavelmente à mera reconstrução das visões socioculturais da natureza que condicionam a percepção que os autores destas narrativas têm do ambiente natural, que por sua vez influenciam seus comportamentos com este último, e a partir destes diferentes conjuntos de representações – construções ativas do mundo e ações sobre ele a partir da maneira de percebê-lo/conhecê-lo – teria podido delinear diferentes arquétipos. Também teria podido analisar se e de que formas uma maior ou menor proximidade entre ser humano e natureza contribui na construção destas representações e na configuração destes arquétipos, se a aproximação de alguém que construiu sua visão de mundo afastado da “experiência direta da natureza” pode mudar suas percepções, suas relações com esta última e de que formas. Mas isso não me satisfazia.

Sentia uma inquietação inicialmente indefinida, fluida, mas que aos poucos foi tomando forma e consistência até levar-me a uns irrenunciáveis interrogantes: é possível, me perguntei, falarmos em relação entre homem e natureza de um ponto de vista epistemológico? E, se pudermos definir melhor ambos os termos desta relação, qual seria a natureza das “mediações” entre um e outro? Trataria-se de elementos externos à natureza que funcionam como “pontes” entre esta e os homens, permitindo que estes últimos a intelijam? É epistemologicamente possível falar em relação direta entre natureza e ser humano? Caso o admitamos, que entendemos com isso?

Inicialmente, assim que estas perguntas vieram à tona em minha consciência, tive a tentação de afastá-las temendo que levar adiante estas indagações teria me distanciado enormemente do objeto inicial da minha análise. Após uma longa reflexão, porém, percebi que elas radicam no âmago deste, pois dizem respeito à própria possibilidade de concebê-lo, e não seria sábio afugentá-las. Ao que levaria, de fato, traçar modelos de interação homem-natureza sem se pôr a questão da pensabilidade mesma de tal relação? Apenas, a reafirmar acriticamente uma dissociação ontológica e cognitiva que não é necessária nem inevitável, mas que atualmente condiciona inconscientemente todas as formas individuais e coletivas de ação do ser humano no mundo, não apenas as mais destrutivas, mas até mesmo – na maioria dos casos, sem que o percebamos – as que pretendem promover uma interação mais harmônica entre os mundos ditos “humano” e “natural”.

Quando falamos, por exemplo, em “preservar a natureza” a estamos objetivando, transformando-a em uma realidade da qual não fazemos nem nos sentimos parte, e esta percepção repercute tanto em nossos comportamentos do dia a dia, como nas políticas locais, nacionais e globais de “conservação” daquilo que experienciamos como “meio ambiente”, isto é, um mero palco onde desenvolvem-se as nossas relações exclusivamente humanas. Por exemplo, como mostra Diegues (2008), o mito de uma natureza “pura” ou “intocada” – que exclui, portanto, o ser humano de seu incessante processo auto-(re)criador – repercutiu de forma dramática nas políticas de criação de unidades de preservação ambiental no Brasil, que até muito recentemente eram formadas expulsando de seus hábitats históricos inteiras comunidades (indígenas, ribeirinhas, quilombolas, caiçaras, varjeiras, etc.), que da noite para o dia passaram a ser consideradas “intrusas” em terras onde viviam há gerações, onde repousam seus antepassados e cuja diversidade biológica contribuíram a preservar, valorizar como fonte de sustento renovável e às vezes até a aumentar através de seus saberes, seus estilos de vida e suas formas tradicionais de manejo dos recursos locais. Essa mesma idéia de uma natureza “intocada”, separada do homem e a ser preservada “intacta” fez com que a realidade geo-bio-antropológica de grande parte do Brasil fosse esquartejada em “unidades de conservação” estanques – que as populações urbanas procuram em busca de relaxamento, de descanso, de experiências estéticas ou espirituais – e uma “sociedade” externa e independente de tais “santuários”, que segue seu curso autonomamente… como se a “natureza” enjaulada nestas unidades fosse imutável e como se os processos gestados na “sociedade” fora delas não fossem parte da constante desconstrução e reconstrução do nosso mundo comum, atingindo indistintamente humanos e não-humanos em toda parte. Se quisermos realmente mudar a maneira de relacionar-nos com o que está ao nosso redor é preciso que nos interroguemos primeiro sobre a natureza desta relação e, conseqüentemente, sobre a nossa própria natureza.

Para ler todo o texto acesse aqui: Pensando o humano e o não-humano.pdf

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